Neurologistas, pedagogos e psicólogos chamam a atenção para a discalculia do desenvolvimento, enfermidade análoga à dislexia, mas que afeta operações com números; estudos apontam que 6% da população mundial sofre com o transtorno
Cerca de 6% da população mundial sofre de discalculia do
desenvolvimento, transtorno neurológico que dificulta o aprendizado da
matemática. A incidência é praticamente a mesma da dislexia, problema
análogo - bem mais famoso - relacionado à leitura e à escrita.
Pesquisadores brasileiros e estrangeiros querem trazer a discalculia do
desenvolvimento para a ordem do dia.
Há poucas semanas, uma das principais revistas científicas do mundo -
a Science - publicou um artigo sobre a doença. O texto recordava perdas
sociais e econômicas para comprovar a gravidade do problema.
Na Grã-Bretanha, por exemplo, estimou-se em R$ 6 bilhões os custos
anuais do mau desempenho matemático entre os ingleses. O trabalho também
apontava o caráter de transtorno negligenciado da discalculia. Desde
2000, a doença mereceu R$ 3,6 milhões em pesquisas do governo americano.
No mesmo período, a dislexia recebeu quase R$ 170 milhões.
"E há trabalhos que mostram que o impacto da discalculia é, pelo
menos, tão grande quanto o da dislexia", diz Vitor Haase, do Laboratório
de Neuropsicologia do Desenvolvimento da UFMG. "Mas há uma questão
cultural: as pessoas não valorizam tanto a importância da matemática
quanto a de ler e escrever."
Contextos. Para que uma criança seja diagnosticada
com discalculia do desenvolvimento, é necessário comprovar que sua
dificuldade no aprendizado da matemática não nasce de uma deficiência
intelectual - que comprometeria outras áreas do conhecimento - ou de
problemas afetivos. Também deve ser descartada a hipótese de que
condições sociais concretas - como um ambiente de vulnerabilidade em
casa ou na escola - bastariam para explicar o transtorno.
José Alexandre Bastos, chefe do serviço de Neurologia Infantil da
Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), sublinha que os
diagnósticos da discalculia do desenvolvimento são sempre feitos por
uma equipe multidisplicinar que costuma incluir um neurologista, um
neuropsicólogo, um pedagogo e um fonoaudiólogo.
"Vale a pena lembrar o impacto do transtorno em reprovações, abandono
escolar, bullying, além de prejuízos à autoestima da criança", afirma a
coordenadora do Laboratório de Neuropsicologia da Unesp de Assis,
Flavia Heloisa dos Santos. Há vários anos pesquisando o tema, Flavia
descobriu que a música pode ser uma poderosa ferramenta para a
reabilitação neuropsicológica de crianças com o problema.
Terapia. O tratamento da discalculia não envolve drogas, mas
treinamento matemático. Só nos casos em que a criança tem transtorno de
déficit de atenção e hipertatividade (TDAH) o médico costuma receitar
algum medicamento. "Mas é para tratar o TDAH", afirma Bastos. "Cerca de
40% das pessoas com dislexia e discalculia tem TDAH."
Casos concomitantes de dislexia e discalculia também são comuns.
Sheila Guerra, de 11 anos, é um exemplo. Como reforço à escola, ela
estuda matemática e português em uma unidade que aplica o método Kumon,
em Belo Horizonte. Lá, realiza o treinamento necessário para superar as
duas condições. Conta com o acompanhamento da psicopedagoga Miriam
Moraes, que afirma que ela deve superar a discalculia em até um ano.
Ruth Shalev, do Centro Médico Shaare Zedek, em Israel, publicou
trabalhos comprovando que 47% das crianças que tratam a discalculia
conseguem superar o problema. Mas o estudo mostrou que a taxa de sucesso
cresce com o diagnóstico precoce.
PARA ENTENDER
"Discalculia não é dificuldade para fazer
cálculos complexos", diz o neurologista José Alexandre Bastos. "É a
incapacidade de lidar com operações triviais." Os problemas ocorrem em
três campos: compreensão dos fatos numéricos (adição, subtração,
multiplicação e divisão simples), realização de procedimentos
matemáticos (como divisão de números grandes ou soma de frações) e
semântica (compreensão da linguagem usada para formular problemas). Ao
minar os fundamentos, a discalculia impede a aquisição de conhecimentos
mais complexos.
Jovem acerta 100% após o tratamento
Grupo de estudiosos da UFMG atende pessoas e investiga as raízes genéticas da discalculia
Na semana passada, Jessica Silva, de 14 anos, foi à sua última sessão
de acompanhamento com a psicóloga Annelise Júlio, do Laboratório de
Neuropsicologia do Desenvolvimento (LND) da UFMG. Faria um conjunto de
exercícios de matemática para avaliar a efetividade das intervenções.
Annelise fez questão de tranquilizá-la: "Calma, você consegue."

Washington Alves/Light Press
Cálculo. Jéssica foi bem em teste após a ajuda de Annelise, que estuda o problema
De fato, a garota acertou tudo. Como esperado de alguém com um
quociente intelectual igual a 120, valor que não deixa dúvidas sobre a
inteligência de Jessica. Quando começaram as intervenções, no entanto,
seu rendimento estava bem abaixo do de uma adolescente da sua idade.
Ela tem transtorno de ansiedade matemática. Diante de números e
contas, sofre um bloqueio que impede qualquer avanço. Como a discalculia
do desenvolvimento, o transtorno dificulta muito o aprendizado.
A unidade da UFMG que auxiliou Jessica pretende identificar as raízes
genéticas da discalculia. Estudos já encontraram a causa da doença no
mau funcionamento de determinados circuitos cerebrais - especialmente no
sulco intraparietal.
O consumo de álcool na gravidez ou o parto prematuro podem explicar
os erros no desenvolvimento neuronal que causam a discalculia do
desenvolvimento. Contudo, fatores hereditários permanecem como a
principal causa do transtorno. Algumas síndromes genéticas bem
definidas, como a síndrome de Turner, são classicamente associadas a um
baixo desempenho matemático.
"Mas, na maioria dos casos, a discalculia é uma herança relacionada a
vários genes e associada a fatores ambientais", explica Vitor Haase, do
LND. Ele coordena o projeto que busca as raízes genéticas da
discalculia.
Com a permissão de escolas e pais, o grupo de pesquisa de Haase
aplica testes em crianças e adolescentes para identificar quem tem
dificuldade em matemática, apesar de não apresentar deficiência
intelectual ou problemas sensoriais e motores.
Os pais das crianças que tiveram baixo desempenho são convidados a
conhecer o projeto. Se quiserem, podem autorizar a realização de um
exame neuropsicológico e a coleta de DNA dos filhos - obtido da saliva.
Recebem, em troca, um relatório e sessões de aconselhamento.
Com o auxílio da pesquisadora Maria Raquel Santos Carvalho, do
Laboratório de Genética Humana e Médica da UFMG, Haase investiga o DNA
em busca de mutações. Olha principalmente para cromossomos relacionados a
outras síndromes associadas ao baixo desempenho em matemática.
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